A pandemia e as tensões geopolíticas da última década expuseram uma fragilidade que décadas de globalização eficiente haviam disfarçado: cadeias de suprimento longas, otimizadas para custo mínimo, são quebradiças quando um único elo falha. A resposta corporativa e política — encurtar e diversificar essas cadeias — virou consenso. Vale, porém, examinar o que essa correção entrega e o que ela cobra.

A lógica do nearshoring e do friendshoring é defensável. Concentrar produção crítica em um único país, ainda que barato, cria um ponto único de falha estratégico. Diversificar fornecedores e aproximar a produção de mercados consumidores ou de aliados políticos reduz esse risco. É, em essência, comprar um seguro — e seguro tem preço.

Esse preço é o ponto que o entusiasmo costuma omitir. A cadeia global longa não era irracional: ela existia porque entregava bens mais baratos ao consumidor. Reverter parte dela significa, necessariamente, custos de produção mais altos, que reaparecem como preços mais altos nas prateleiras. Há um trade-off real entre resiliência e eficiência, e fingir que não há é desonestidade analítica.

O risco maior é que a agenda legítima de resiliência seja capturada pelo protecionismo de sempre. "Segurança da cadeia de suprimentos" é um argumento facilmente sequestrado por setores que apenas querem proteção contra concorrência estrangeira. Tarifa justificada por segurança nacional, mas desenhada para beneficiar um lobby específico, não é estratégia — é privilégio com fantasia geopolítica, e quem paga é o consumidor.

Para países emergentes, a reconfiguração abre uma janela concreta. À medida que multinacionais buscam alternativas para diversificar produção, abre-se oportunidade para quem oferecer estabilidade institucional, mão de obra qualificada e logística competitiva. O Brasil tem ativos para disputar essa vaga, mas a janela não espera: insegurança jurídica, carga tributária complexa e infraestrutura deficiente afastam exatamente o investimento que a realocação global poderia trazer.

A leitura sóbria é que a globalização não acabou — ela está sendo reprecificada. O mundo que emerge é menos otimizado para custo e mais atento a risco. Isso é racional. O erro seria confundir diversificação inteligente com autarquia, ou usar a palavra "resiliência" para vender ao eleitor um protecionismo que apenas o empobrece. A cadeia ideal não é a mais curta nem a mais barata: é a que sobrevive ao próximo choque sem arruinar o consumidor no processo.