A Advocacia-Geral da União (AGU) protocolou, na segunda-feira, 15 de junho, uma petição em tribunal federal da Flórida pedindo a extinção da ação judicial movida pela Rumble Inc. e pela Trump Media & Technology Group Corp. contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O pedido foi divulgado pelo próprio órgão na terça-feira, 16.
O argumento central apresentado pela AGU é de natureza soberana: decisões judiciais proferidas pela Suprema Corte do Brasil não podem ser submetidas ao escrutínio de cortes estrangeiras. A posição encontra respaldo no direito internacional — mas é importante registrar o que ela implica na prática. O Estado brasileiro, por meio de seu órgão máximo de representação jurídica, mobilizou recursos públicos para bloquear que atos de um ministro em exercício sejam examinados em jurisdição estrangeira.
A AGU qualificou a iniciativa como promoção da "defesa dos interesses do Estado Brasileiro". A formulação merece atenção: a proteção do ministro Moraes é apresentada, institucionalmente, como sinônimo do interesse nacional — uma identidade entre agente e instituição que não é trivial e que o contribuinte que financia a AGU tem razão de notar.
As empresas requerentes, Rumble Inc. e Trump Media & Technology Group Corp., acionaram a Justiça americana para contestar atos do ministro. Ao pedir a extinção do processo, a AGU sustenta que esse caminho é juridicamente inadmissível. A corte federal da Flórida decidirá se o argumento prospera.
O caso expõe um atrito estrutural em ascensão. De um lado, o modelo de governança digital adotado pelo STF, operado em grande medida por Moraes; de outro, empresas americanas que recusaram submissão a esse modelo e buscaram reparação em seu próprio sistema judicial. O simples fato de o processo tramitar num tribunal dos Estados Unidos — e não ser apenas um debate interno brasileiro — confere ao episódio uma dimensão que as partes não podem ignorar.
O movimento da AGU sinaliza uma postura clara do governo brasileiro: decisões do STF não serão debatidas fora de suas fronteiras. É uma afirmação de soberania legítima em tese — mas também a escolha de mobilizar o aparato do Estado em defesa de um ministro cujas ações geraram litígio internacional. O desfecho na Flórida será um teste concreto sobre o alcance real dessa blindagem institucional.
