O Bank of America publicou relatório no qual avalia que a Argentina atravessa um momento de convergência rara: os analistas da instituição identificam progressos simultâneos nas contas externas e no combate à inflação, e usam a metáfora de que "os planetas se alinham" para descrever o que classificam como um ciclo virtuoso em formação.

Segundo o BofA, dois vetores distintos sustentam esse cenário. O primeiro é o aperto fiscal conduzido pelo governo de Javier Milei, que tem contribuído para deter a escalada dos preços — resultado que economistas ortodoxos associam à redução do déficit público como condição necessária para estabilizar a moeda. O segundo vetor é um boom das exportações, que está ampliando o saldo comercial argentino e, consequentemente, aliviando a pressão sobre as reservas externas do país.

A combinação é relevante porque ataca dois dos problemas estruturais que historicamente alimentaram os ciclos de crise argentina: a desorganização fiscal e o desequilíbrio externo. Quando ambos se deterioram simultaneamente, o resultado costuma ser inflação acelerada e fuga de capitais. O movimento inverso — ajuste fiscal concomitante a exportações em expansão — cria condições para estabilização mais sustentável do que intervenções pontuais de controle de câmbio ou congelamento de preços, medidas recorrentes em governos anteriores.

A avaliação do BofA, um dos maiores bancos do mundo em análise de mercados emergentes, carrega peso de sinalização para investidores institucionais. Relatórios desse tipo costumam influenciar a percepção de risco-país e o apetite por ativos argentinos em mercados internacionais.

O que o banco não detalha — ao menos na parcela do relatório disponível — é a velocidade e a durabilidade esperadas desse ciclo. Reformas fiscais de alta intensidade enfrentam resistência política crescente à medida que seus efeitos distributivos se tornam visíveis, e a continuidade do boom exportador depende de variáveis externas, como preços de commodities, que escapam ao controle do governo Milei.

Por ora, o diagnóstico do BofA oferece uma leitura favorável ao experimento de austeridade em curso em Buenos Aires: quando a disciplina fiscal encontra um ambiente externo favorável, os fundamentos tendem a responder. O desafio seguinte é transformar estabilização em crescimento.