A proteção da Amazônia é tratada, no debate público, quase sempre como um conflito entre dois polos irreconciliáveis: de um lado, conservação; de outro, desenvolvimento e geração de renda. Essa moldura é não apenas falsa como contraproducente. Onde a floresta em pé não tem valor econômico para quem vive nela, a floresta derrubada sempre terá — e nenhuma fiscalização repressiva, por mais bem financiada que seja, vence permanentemente esse incentivo.

A questão central é de incentivos. O desmatamento ilegal não é, na maior parte dos casos, um ato de vilania abstrata; é uma decisão econômica racional de quem só consegue extrair renda da terra convertendo-a em pasto ou em lavoura. Enquanto a alternativa for "floresta de pé sem renda" contra "floresta derrubada com renda", a derrubada vence. A pergunta política correta, portanto, não é como punir mais — embora a punição ao crime ambiental deva existir e ser crível —, mas como tornar a floresta viva mais lucrativa que a floresta morta.

Há um arsenal de instrumentos de mercado para isso, e eles funcionam melhor que a tutela estatal pura. Mercados de carbono bem regulados permitem que quem mantém a floresta seja remunerado pelo serviço ambiental que presta a todos. Cadeias produtivas da sociobiodiversidade — produtos florestais não madeireiros com mercado real — dão renda sem derrubada. Pagamento por serviços ambientais transforma a conservação em fonte de receita para a população local, e não em sacrifício imposto de fora.

A condição para que esses mecanismos funcionem é frequentemente ignorada: segurança jurídica sobre a terra. Onde a propriedade ou a posse é indefinida, ninguém investe no longo prazo de uma floresta produtiva, porque o horizonte é incerto. Regularização fundiária — saber quem é dono ou responsável por cada hectare — não é tema lateral da conservação; é pré-condição dela. Dono identificado é responsável identificável, para o bônus e para o ônus.

A abordagem repressiva tem seu lugar, mas como complemento, não como estratégia central. Fiscalização cara, distante e sem alternativa econômica para a população apenas empurra a atividade para a ilegalidade e alimenta o ressentimento de quem se sente tratado como criminoso por tentar sobreviver.

A conservação que dá certo no longo prazo é a que alia o produtor rural, o ribeirinho e o investidor ao objetivo ambiental, em vez de colocá-los como inimigos dele. Floresta protegida de forma sustentável é floresta que rende mais viva do que morta — para quem mora nela. Resolver esse cálculo é mais eficaz, e mais barato, que qualquer operação de fiscalização.