Imagine que alguém consegue seguir seus passos pelo celular sem precisar invadir seu aparelho ou instalar nenhum aplicativo. É exatamente isso que duas empresas de vigilância fizeram, segundo um relatório do Citizen Lab, da Universidade de Toronto. Elas exploraram brechas no backbone das redes de telefonia — a espinha dorsal que conecta operadoras no mundo todo — para rastrear a localização de várias vítimas em diferentes países. O método é silencioso e difícil de detectar, pois não deixa rastros no dispositivo da pessoa monitorada.
O truque técnico está no SS7, um protocolo antigo usado pelas operadoras para trocar informações entre si, como chamadas e mensagens. As empresas de vigilância conseguiram acesso a esse sistema — possivelmente comprando credenciais de funcionários de telecom ou explorando falhas — e enviaram requisições falsas para obter dados de localização. "É como se alguém conseguisse entrar no sistema de trânsito de uma cidade e pedir a localização de qualquer carro, sem precisar instalar um GPS nele", explica um pesquisador do Citizen Lab.
O impacto prático é assustador: governos, empresas ou até criminosos podem usar essa técnica para perseguir dissidentes, jornalistas ou rivais de negócios. Como o ataque acontece na infraestrutura das operadoras, não há aviso no celular da vítima e medidas comuns de segurança, como antivírus ou atualizações, não ajudam. O Citizen Lab não revelou os nomes das empresas envolvidas nem quantas pessoas foram afetadas, mas alerta que o problema é global.
A solução passa por pressionar as operadoras a reforçar a segurança do SS7, algo que já vem sendo discutido há anos, mas sem avanços concretos. Enquanto isso, o cidadão comum fica vulnerável. "É um lembrete de que, no mundo digital, sua privacidade depende de sistemas que você nem sabe que existem", conclui o relatório.
