Um ex-diretor do Banco Central levou pessoalmente ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro a informação de que o mercado financeiro imputava ao então presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, a autoria da chamada "emenda Master" — proposta que quadruplicaria o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por investimento garantido. O relato é de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor do BC, conforme apuração da Folha Mercado.

A percepção de mercado registrada por Souza é politicamente relevante. Atribuir a Campos Neto — figura identificada com o campo liberal e com a política de juros altos que desagradou o governo Lula — uma medida que beneficiaria emissores de crédito privado muda o enquadramento do debate. A "emenda Master" deixa de ser lida como expansão populista do seguro de depósitos e passa a carregar o peso simbólico da gestão anterior do BC.

Do ponto de vista da responsabilidade fiscal, a expansão do FGC merece escrutínio independentemente de quem a paterniza. Multiplicar por quatro o limite de cobertura de investimentos garantidos amplia o risco moral do sistema: bancos menores e fintechs passam a captar recursos com o mesmo colchão de segurança que as grandes instituições, sem necessariamente apresentar a mesma solidez patrimonial. O custo potencial recai sobre o próprio setor financeiro — e, em cenários extremos, sobre o contribuinte.

O episódio também expõe a dinâmica de bastidores em que ex-autoridades regulatórias transitam entre a esfera pública e o mercado, carregando informações sobre percepções e atribuições que não chegam ao debate aberto. A conversa entre Souza e Vorcaro, agora tornada pública, é um exemplo desta circulação opaca de sinais que movimenta expectativas antes de qualquer decisão formal.

A Folha Mercado não reproduz a íntegra da troca entre os dois, e os detalhes do contexto em que o alerta foi feito permanecem parcialmente obscuros. O que a fonte deixa claro é o fato central: dentro do próprio mercado, a "emenda Master" já havia encontrado um responsável antes de qualquer votação — e esse responsável era o presidente do Banco Central.