O debate brasileiro sobre saúde costuma se reduzir a uma única tecla: falta dinheiro. É uma resposta confortável, porque dispensa qualquer exame sobre como o dinheiro existente é gasto. A evidência, no entanto, sugere que o problema central não é apenas o volume de recursos, mas a eficiência com que eles se convertem em atendimento.

Sistemas de saúde — públicos e privados, no Brasil e no exterior — compartilham uma patologia comum: a desconexão entre quem decide o gasto, quem o paga e quem o recebe. Quando o paciente não enxerga o custo do serviço, o prestador não compete por eficiência e o gestor é avaliado por orçamento executado e não por desfecho clínico, o resultado previsível é desperdício. Exames redundantes, internações evitáveis, compras superfaturadas, glosas e fraudes não são acidentes do sistema — são consequência de incentivos mal desenhados.

A fila é o sintoma mais visível dessa ineficiência. Fila não é apenas falta de recurso; é frequentemente falta de coordenação — leito ocioso em um hospital enquanto outro transborda, especialista subutilizado por agenda mal gerida, cirurgia adiada por ausência de um insumo barato. Resolver isso não exige necessariamente mais dinheiro; exige gestão, dados e accountability.

A lente liberal aqui não é defender a privatização da saúde como dogma, e sim insistir num princípio simples: o recurso público é escasso e pertence ao contribuinte, e quem o administra deve prestar contas pelo resultado, não pelo esforço. Atrelar financiamento a desempenho mensurável — tempo de espera, taxa de reinternação, satisfação verificada do paciente — alinha o incentivo do gestor ao interesse de quem usa o serviço.

Há também o papel do setor privado e da concorrência. Onde prestadores privados podem ser contratados pelo poder público de forma transparente e competitiva, o Estado compra serviço em vez de operar tudo diretamente, e a comparação de custo e qualidade pressiona todos para cima. O inimigo da boa saúde pública não é o lucro do prestador eficiente; é a ausência de comparação e de consequência.

Nada disso significa negar que subfinanciamento exista em pontos do sistema. Significa recusar o atalho intelectual que transforma "mais verba" na única resposta possível. Antes de pedir mais do contribuinte, o Estado deve provar que gasta bem o que já arrecada. Saúde melhor, no Brasil, depende menos de um cheque maior e mais de um sistema que pare de desperdiçar o cheque que já recebe.