Dado proprietário expõe o custo humano da instabilidade macroeconômica: quem não tem reservas não tem defesa
O Brasil desigual não aparece apenas na renda — aparece na capacidade de sobreviver a um choque. O Índice de Resiliência Individual Borin (IIR), indicador proprietário que mensura a capacidade de famílias brasileiras de absorver crises econômicas, revela uma fratura estrutural no País: a classe A registra pontuação de 57,70, enquanto a classe D/E marca 12,20 — uma diferença de 4,7 vezes.
O dado, inédito, não tem paralelo em nenhum veículo de imprensa ou instituto público. E o que ele diz é incômodo: quando o ambiente macroeconômico se deteriora — juros sobem, câmbio desaba, exportações caem — o rico perde patrimônio. O pobre perde a mesa.
O choque já chegou
O contexto não poderia ser mais oportuno. O Banco Central do Brasil documentou que o impacto das tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos em 2025 foi "mais pronunciado, tanto em valor quanto em quantum", nas regiões Sudeste e Sul do País — justamente onde se concentra maior parte da cadeia industrial e de serviços que emprega a base da pirâmide. O período mais agudo foi entre agosto e novembro de 2024, no pico das alíquotas trumpistas.
Enquanto exportadores de commodities ajustaram rotas e negociaram novos protocolos — o Ministério da Agricultura lidera esta semana uma delegação oficial à China para ampliar relações comerciais e abrir novos mercados para produtos brasileiros —, trabalhadores informais e famílias sem reservas não têm hedge. Não têm opção B.
Quem constrói resiliência
O agronegócio oferece um contraponto revelador. O setor avançou 11,7% em 2025 em relação ao ano anterior e respondeu por 32,8% do crescimento de 2,3% do PIB brasileiro no período, segundo dados do IBGE. O resultado não foi obra de subsídio ou transferência: foi livre-iniciativa, acesso a mercado, capital e gestão de risco.
O reflexo aparece nos mercados de capitais. O fiagro SNFZ11 registrou R$ 6,9 milhões de liquidez no último pregão, em ambiente de alta das commodities agrícolas e avanço das exportações, ultrapassando a marca de 13 mil cotistas. O investidor que tem acesso a instrumentos de proteção — fundos, diversificação, crédito — atravessa a turbulência. O trabalhador sem conta bancária, não.
O diagnóstico que o assistencialismo ignora
O IIR Borin não mede pobreza de renda. Mede capacidade de resposta. E o que o índice revela é que a distância entre classes não é apenas de quanto se ganha, mas de quanto se consegue resistir quando o choque externo — tarifas americanas, juros europeus em alta, volatilidade cambial — chega à porta.
A tentação política é sempre a mesma: diante da fragilidade dos mais pobres, ampliar transferências. O problema é que transferência não constrói resiliência — adia a vulnerabilidade. A classe A não tem IIR de 57,70 porque recebeu bolsa. Tem porque acumulou patrimônio, diversificou renda e teve acesso a crédito em condições racionais.
Enquanto a taxa básica de juros permanece em patamar que inviabiliza o empreendedorismo na base da pirâmide e enquanto a carga tributária penaliza o trabalho formal, o IIR da classe D/E seguirá em 12,20 — ou pior.
O número que o governo não calcula
Nenhum ministério produz o IIR. Nenhum instituto oficial mede resiliência por classe social de forma sistemática. O índice Borin preenche esse vazio — e o resultado é constrangedor para qualquer narrativa que coloque o Estado como protetor natural dos mais vulneráveis.
A má gestão macroeconômica tem um endereço preferencial: a periferia. Quem paga a conta dos juros altos, da inflação represada e da instabilidade fiscal não é o cotista do fiagro — é o trabalhador informal da região Sul que perdeu pedido por conta da tarifa de Trump e não tinha reserva para o mês seguinte.
O Brasil desigual começa antes da crise. O IIR apenas torna isso legível.
Fonte primária: Índice Borin IIR (proprietário). Dados de PIB e agronegócio: IBGE via BTG Pactual/Money Times. Impacto tarifário: Banco Central do Brasil via Suno Research. Dados de mercado: Suno Research.
