Dado oficial do IBGE expõe o imposto invisível que corrói o salário — e pesa mais no prato de quem ganha menos


A inflação de alimentação no Brasil acumulou 5,27% nos últimos 12 meses, superando o IPCA geral em 0,88 ponto percentual, segundo dados oficiais do IBGE/SIDRA. O índice cheio fechou o período em 4,39%.

A diferença não é detalhe estatístico. É o imposto invisível que opera em silêncio, mês a mês, corroendo o poder de compra de quem trabalha e recebe em reais. E ele não atinge a todos da mesma forma: famílias de menor renda destinam parcela proporcionalmente maior do orçamento à alimentação — o que significa que, na prática, a inflação real que essas famílias enfrentam supera com folga o número divulgado para a classe média.


O agro cresce. A gôndola também sobe.

O setor agropecuário atravessa um momento de expansão expressiva. Em 2025, o agronegócio avançou 11,7% em relação ao ano anterior e respondeu por 32,8% do crescimento de 2,3% do PIB brasileiro no período, segundo o próprio IBGE. Os números são motivo de orgulho legítimo para o setor produtivo nacional.

O problema é o que acontece entre o campo e o consumidor final. No mercado financeiro, o movimento confirma a alta: o fiagro SNFZ11 registrou liquidez de aproximadamente R$ 6,9 milhões no último pregão de terça-feira (19/05), em ambiente descrito pela Suno Research como marcado pela alta das commodities agrícolas, avanço das exportações e valorização dos grãos brasileiros. O produto cresce, o investidor ganha — e o preço do feijão acompanha.


Pressão externa entra no cálculo

O cenário internacional adiciona uma camada de pressão. O Banco Central identificou que o impacto das tarifas de importação dos Estados Unidos, elevadas em 2025, foi mais pronunciado nas exportações das regiões Sudeste e Sul do Brasil, especialmente entre agosto e novembro do ano passado, no auge das alíquotas, segundo análise publicada pela Suno Research.

Redirecionamentos de fluxo de exportação afetam a oferta interna. Quando mais produto é desviado para outros mercados internacionais — como a China, para onde o Ministério da Agricultura lidera nesta semana uma delegação oficial para ampliar protocolos sanitários e relações comerciais —, a oferta disponível no mercado doméstico encolhe, e o preço sobe.


O que o número do IBGE revela

O IPCA de alimentação a 5,27% em 12 meses supera o índice geral em 0,88 ponto percentual. Para uma família que gasta R$ 1.500 por mês em alimentação, isso representa mais de R$ 79 absorvidos pela inflação do setor apenas no período — dinheiro que sai do orçamento sem qualquer contrapartida de serviço ou benefício recebido.

Inflação não é fenômeno natural. É o resultado acumulado de decisões de política econômica: gasto público acima da capacidade de arrecadação, carga tributária que encarece toda a cadeia produtiva e intervenções que distorcem preços ao longo do caminho do produtor até o consumidor. O contribuinte não vê a nota fiscal — mas sente no carrinho.


Fontes: IBGE/SIDRA (dado primário oficial); Suno Research; Money Times; Banco Central do Brasil.