Sediar um megaevento esportivo — uma Copa, uma Olimpíada — é vendido a qualquer país como oportunidade histórica: visibilidade global, turismo, infraestrutura de presente, orgulho nacional. A palavra-chave do discurso é sempre "legado". Vale, com a frieza que o tema raramente recebe, examinar se a conta fecha.

A experiência internacional acumulada é consistente e desconfortável para os entusiastas. Megaeventos tendem, com regularidade quase previsível, a estourar o orçamento inicial — e a estourá-lo por margens largas. O custo final supera de forma rotineira a estimativa apresentada quando o evento foi aprovado. Isso não é azar repetido; é um padrão estrutural, ligado à dinâmica de quem decide gastar dinheiro público sob prazo fixo, pressão política e fornecedores cientes de que a obra não pode atrasar.

O problema do "legado" é mais sutil. Parte do investimento gera, de fato, infraestrutura útil — aeroportos, transporte urbano, melhorias que a cidade aproveita depois. Mas parte relevante vai para instalações esportivas de uso muito específico, que após o evento se tornam caras de manter e subutilizadas. O estádio monumental ou a arena especializada que fizeram sentido por três semanas viram, com frequência, um custo recorrente para o contribuinte por décadas. Legado, nesses casos, é o nome bonito de um passivo.

Há ainda uma questão de prioridade que o entusiasmo nacional tende a abafar. Recurso público é finito. Cada montante destinado a um megaevento é um montante que não foi para saúde, educação, saneamento ou segurança. A pergunta honesta não é "o evento traz benefício?" — quase tudo traz algum benefício —, mas "este é o melhor uso possível deste dinheiro?". Comparado ao retorno social de saneamento básico ou de infraestrutura logística, o megaevento raramente vence o teste de custo de oportunidade.

A lente correta não é a do antiesportismo nem a da recusa automática. É a da transparência e da disciplina. Se um país decide sediar um evento, o cidadão tem direito a um orçamento honesto desde o início, a um plano crível de uso das instalações depois do evento, e a uma contabilidade que não esconda custo em estatais ou em obras "associadas". O problema raramente é o esporte; é a opacidade fiscal que costuma acompanhá-lo.

A festa esportiva é legítima e tem valor real — inclusive intangível. Mas valor intangível não dispensa contabilidade tangível. O contribuinte que paga a conta merece saber o tamanho dela antes, e não descobri-la, sempre maior, depois que as arquibancadas se esvaziaram.