A taxa de mortalidade de startups é alta, e isso é regularmente apresentado como uma falha do ecossistema a ser combatida com mais apoio, mais subsídio, mais programa público. A leitura é equivocada. A alta taxa de fracasso não é um defeito do modelo de inovação — é o próprio modelo funcionando.
Uma startup, por definição, é uma aposta sob incerteza radical: um teste de hipótese sobre se existe um cliente disposto a pagar por uma solução nova. A maioria das hipóteses, em qualquer área da vida, está errada. Um ecossistema saudável é aquele em que muitas apostas são feitas, as erradas são abandonadas rápido e barato, e o capital — humano e financeiro — é realocado para as poucas que funcionam. O fracasso individual é o mecanismo pelo qual o sistema descobre o que dá certo.
O perigo está em querer "corrigir" esse mecanismo. Quando o Estado entra para reduzir artificialmente a taxa de fracasso — subsidiando empresas que o mercado não validou, mantendo vivas com dinheiro público apostas que já se mostraram erradas —, ele não está protegendo a inovação; está sabotando o processo de seleção que faz a inovação funcionar. Capital alocado para sustentar o que não funciona é capital subtraído do que poderia funcionar.
Isso não significa que o ambiente seja irrelevante. Significa que o papel do ambiente é outro: não evitar o fracasso, mas torná-lo barato e rápido. Um bom ecossistema permite que o empreendedor teste sua hipótese gastando pouco, descubra cedo se ela está errada, encerre a operação sem ruína pessoal e tente de novo. O que melhora as chances agregadas de sucesso não é blindar cada empresa contra a falha — é aumentar o número de tentativas e a velocidade de aprendizado.
A consequência prática para a política pública é contraintuitiva, mas sólida. O melhor que o Estado pode fazer pela inovação raramente é escolher vencedores ou financiar diretamente empresas. É reduzir o custo de tentar: tributação simples para quem está começando, regras de falência que permitam recomeçar, mercado de capitais que funcione, e ausência de barreiras regulatórias que protejam incumbentes contra o desafiante.
Para o empreendedor, há uma libertação nessa leitura. O fracasso de uma startup, quando a tentativa foi honesta e o aprendizado, real, não é vergonha nem desperdício — é informação, e é a matéria-prima do próximo acerto. Economias que entendem isso tratam o fundador que tentou e errou como um ativo. As que não entendem o tratam como suspeito — e depois se perguntam por que inovam tão pouco.
