Os números são expressivos o suficiente para dispensar adjetivos. A universalização do saneamento básico no estado de São Paulo tem potencial de injetar R$ 330 bilhões no PIB brasileiro até 2060 e criar mais de 4,6 milhões de postos de trabalho, segundo projeções divulgadas pelo O Antagonista. Como bônus ambiental, a operação reduziria emissões de gases de efeito estufa em volume superior à metade do que a cidade de São Paulo despeja na atmosfera anualmente.
O dado mais revelador, porém, não é o que está na projeção — é o que ela pressupõe. Para que R$ 330 bilhões circulem no PIB e 4,6 milhões de empregos sejam gerados, é preciso que o investimento em infraestrutura saia do papel. E aí reside a questão que projeções otimistas costumam deixar de fora: quem financia, quem opera e em que condições.
A escala dos números — R$ 330 bilhões ao longo de 35 anos no maior estado do país — sugere que o esforço ultrapassa a capacidade de qualquer orçamento público isolado. O setor privado, via concessões e parcerias, é o caminho que a lógica fiscal indica. Modelos baseados em subsídios cruzados e tarifas reguladas têm histórico de viabilizar expansão de rede sem transferir integralmente o custo para o Tesouro. A alternativa — estatização do investimento — implicaria pressão sobre a dívida pública em momento de consolidação fiscal frágil.
O componente ambiental das projeções merece leitura cuidadosa. A comparação com as emissões da capital paulista empresta visibilidade política ao tema, mas o argumento econômico central — empregos e crescimento do PIB — já seria suficiente para justificar prioridade regulatória. Sanear não é política de governo; é infraestrutura de Estado.
A projeção para 2060 tem a virtude de colocar o problema em perspectiva de longo prazo, mas também carrega o risco típico de horizontes distantes: a urgência se dilui. O déficit de saneamento em São Paulo existe hoje, gera custos em saúde pública hoje e deprime produtividade hoje. Os 4,6 milhões de empregos projetados não surgirão sozinhos — dependem de marco regulatório estável, segurança jurídica para o investidor e capacidade institucional para licenciar e fiscalizar obras em escala. Esses são os gargalos que os números, por mais robustos que sejam, não resolvem por conta própria.
