O gramado da Casa Branca foi palco neste domingo de um evento inédito: combates do Ultimate Fighting Championship transmitidos diante de milhares de espectadores convidados pelo presidente Donald Trump. No confronto principal, Justin Gaethje derrotou Ilia Topuria para conquistar o cinturão dos leves, segundo a BBC World. A iniciativa confirmou o padrão da administração Trump de converter o espaço institucional da presidência em plataforma de entretenimento popular.
O que deveria ser uma celebração esportiva ganhou contornos políticos constrangedores quando o lutador Josh Hokit, durante entrevista pós-luta, desviou do esporte para enaltecer o presidente, invocar temas religiosos e repetir uma teoria conspiratória falsa sobre Michelle Obama, conforme relatou The Guardian. A presença de cânticos da plateia dirigidos à ex-primeira-dama completou o quadro de um evento oficial contaminado por agressividade partidária — um ativo de curto prazo para a base trumpista, um passivo de longo prazo para a imagem institucional da presidência.
Enquanto o espetáculo decorria no gramado, a agenda geopolítica avançava em paralelo. Trump ameaçou impor tarifa de 100% sobre vinhos e champanhes franceses caso Paris se recuse a revogar sua taxa de serviços digitais, conforme o New York Post reportou e The Guardian confirmou. A França aplica desde 2019 uma alíquota de 3% sobre as receitas auferidas por empresas de tecnologia — entre elas Facebook, Amazon, Apple e Google — no território francês. A medida, adotada quando as negociações multilaterais sobre tributação digital emperraram, tornou-se alvo recorrente de Washington.
O momento da ameaça não é acidental: o presidente francês estava programado para receber Trump justamente nesta segunda-feira, antes da abertura do G7 em Évian, segundo Le Monde. A lógica tarifária de Trump funciona como alavanca de pressão pré-negociação — e a escolha do vinho como vetor não é apenas simbólica. Uma tarifa de 100% sobre exportações francesas de bebidas representaria impacto direto e mensurável sobre um setor de alta visibilidade política na França.
O padrão que emerge desta jornada é revelador: a Casa Branca simultaneamente encena populismo doméstico com UFC no gramado e instrumentaliza tarifas como diplomacia coercitiva à véspera de cúpulas multilaterais. Para os aliados ocidentais, a equação torna-se cada vez mais difícil de gerenciar — e para o contribuinte americano que consome produtos importados, o custo de cada nova ameaça tarifária eventualmente chega à prateleira.
